Quem tem coragem de me dizer para não sonhar? Quando fecho os olhos por instantes longos e frágeis como uma vara de pescar barata, perco a coragem de abrí-los. Enxergo espíritos luminosos, mas tudo o que faço é tentar olhar mais para dentro. Me imagino entrando numa vagina, larga e sem fim. Ignoro a vermelhidão do meu choro mas não consigo deixar de notar os freios em meu movimento. Sou empurrada novamente pra frente, mas teimo em pressionar minhas pálpebras que quase roçam em minhas bochechas. O jeito é controlar com as mãos o escuro que me pertence. Como um cego de orelhas, nem ouvir eu vejo. Apenas imagino, e já está bom.
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sombra das pálpebras
Novembro 7, 2008um dia típico de aula
Outubro 23, 2008Eu estava cercada de sacos pretos que vazam escremento. O cheiro subia pela minha narina e meu pulmão recusava. Minha boca tentava tragar, mas havia gosto na minha saliva. O liguido preto chegava aos meu pés num movimento de ressaca, como óleo gosmento. Eu olhava, reprovava e rezava para que meu câncer me comesse e deixasse minha massa cefálica pingar pelo chão. Eu lembrava da página amarela de minha agenda, marcando o dia de hoje com um círculo vermelho. Eu tinha compromisso e meu estômago estourava ácido como eu estoro plástio bolha. Prazerosamente, eu engolia meu coração e desejava que suas artérias entupissem de ansiedade. Tomei um elevador como se toma um trem, não encarei olhos nenhum, escolhi um canto e fingi meditar na tela do meu celular. Esperei os minutos passarem como um bote sem remo, sentada na privada de cada banheiro que eu encontrava pelo caminho. Tomei outro elevador, subindo, cruzei os dedos para não parar em nenhum outro andar senão o meu. E parou. Desceu, subiu, parou. Eu fiquei lá dentro como um clastofóbico entupido de timidez, fingindo pensar, fingindo não olhar, fingindo estar confortável. Encarei as paredes molhadas pelo meu suor, encarei o chão encaroçado e sujo de lama. Cheguei.
meu chico
Outubro 21, 2008chega estampado, manchete, retrato
com vendas nos olhos, legenda e as inicias
eu nao entendo essa gente, seu moço
fazendo alvoroço demais.
coração na sacola
Outubro 21, 2008só quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe q eu te encontrei. ir para onde o vento for é privilégio. pra nós dois, sair de casa já é se aventurar. me diz o que é sufoco que eu me mostro afim de te acompanhar. e se o caso for, eu levo minha casa numa sacola.
vem, meu bem, que já não consigo mais conjugar meus verbos para que te impeça de rejeitar. vem, meu amor, antes que eu termine a frase em três pontos. vem, coração, porque esse aqui já não cabe mais na linha, na frase, no parágrafo, na vida. vem.
acorda
Outubro 15, 2008a pessoa mais importante do mundo pra mim me disse hoje que eu sou arrogante. que eu me fecho pra tudo, e minha opinião é a única válida. que eu sou o centro de tudo e contrario a tudo e a todos.
esta pessoa está certa. eu sou uma bosta de pessoa. nem fazer alguém feliz eu consigo, porque estou muito ocupada me fazendo feliz.
eu vou mudar. vou mudar. vou estar aberta à tudo, mesmo àquilo de que eu não gosto. vou ouvir todos. vou ajudar. vou ouvir mais e me expressar menos. porque minha opinião só será importante se ela estiver ajudando alguém. nunca porque estará menosprezando.
a nossa bossa nova
Outubro 12, 2008eu ando em frente por sentir vontade. eu ando em frente pra sentir saudade. tentei esquecer sobre mim. comecei a escrever sobre mim. eu vi primeiro aquele menino bonito. eu soube primeiro quem ele era. canto pra ele, só sei dizer pra cuidar bem de mim. eu quis te conhecer, mas tive que aceitar. eu quis te conhecer, mas chega de insistir. caberá à nós o que há de vir. quem dera ser a eternidade. caminho em frente, novamente.
lembro dos seus rabiscos. lembro das suas filosofias. lembro de suas letras. lembro da sua voz. lembro das suas canções. lembro dos seus gostos. lembro das suas risadas. lembro das suas vontades. lembro até do rosto que não vi.
eu escondi minhas falas. escondi meus poemas, minhas canções. escondi meu amor, meus sonhos, minhas vontades. escondi quem eu era e me tornei outra. me tornei a sua.
naquele violão de bossa nova, sua voz cantava “lará…lará…lará. o que me falta são palavras pra dizer. lará…eu não as tenho, mas eu procuro o meu amor. lará…”
sou
Outubro 4, 2008O ingresso pro show do Marcelo Camelo no TIM Festival 2008 está esgotado. Uma lástima, doce lástima.
Ontem, na verdade dias antes de ontem, ele escreveu uma música pra mim. Cantou sussurrando, reclamando da voz. Dizia que nada dizia, dizia não saber dizer. Dizia tudo sem palavras e no fim, dizia que procurava um amor. Estou aqui, estou aqui.
“Posso estar só, mas sou de todo mundo. Por eu ser só um, solidão, foge que eu te encontro… que eu já tenho asa. Isso lá é bom, doce solidão?”
É bom te encontrar, sentir a voz doce sem perfume. É bom sonhar, estar mais perto que de costume. É bom falar, filosofia simples te presume. É bom ouvir, pra te decorar abaixo o volume.
Quem sabe a gente não se encontre, bebendo Original e pitando um enquanto te escuto por trás do som do Vanguart.
penny lane genérica
Setembro 27, 2008escutei black dog. vesti uma camiseta azul com um dirigível impresso em 100% algodão. tomei ácido. escrevi 20 páginas sobre como o lou reed está tentando ser bowie no seu novo cd. trepei com o baterista da banda do meu vizinho. e abandonei meus pais numa festa de casamento para poder beber.
green mind
Agosto 25, 2008cá estou, lá me vou. cheguei agora de uma viagem imaginária. toda cansada, dor na coluna e muitas lembranças. voltei também de um churrasco, aquela típica comemoração de quando o palmeiras vence. uma picanha, muitas cervejas e futebol. assim, não que eu goste do esporte, mas depois de alguns litros de itaipava eu já consigo opinar sobre quem é ladrão e quem é bom. no caso, também cá cheguei de um dia de caminhos, do quarto pra cozinha, da cozinha pra sala, da sala pro quarto. um tanto quanto vívida, levando em conta que normalmente a rota não sai do quarto.
é simples. é triste. não sei bem onde estou, mas sei que me vou, e assim continuo indo.
quanto mentira, mulher.
tratamento pós-balada
Agosto 15, 2008cheguei em casa com o jornal e o pão. uma mão segurando os sapatos, e outra abrindo a porta. até na ponta do pé eu faço barulho. senti um respirar profundo. odeio olhar pro escuro quando to bêbada. aqueles vultos que não são vultos, e minha cabeça girando. minha cama tava pronta pra dormir. não considero uma surpresa apenas conheço minha mãe. tirei toda a minha roupa e coloquei num canto, sem cuidado algum. quando mais nova, costumava abrir parte da sacada e estender um pouco a roupa. na época, os cheiros de cigarro e bebida saíam. agora já está impregnado. é incrível a minha letargia em cada gesto. enfim, deitei. enrolei e desenrolei o edredon por entre minhas pernas dez vezes. não contei realmente, apenas chutei. era minha consciencia que não me deixava dormir. afinal, não era seguro o suficiente dormir sem fazer xixi. fiquei de pé olhando para o vaso cor-de-rosa. seria prudente da minha parte dar descarga as 5 da manha? achei que sim. e nada ouvi a não ser um ‘piii tuts tuts pii`que habitava meus ouvidos.
enfim, deitei pela segunda vez. a ná me veio na cabeça. fiquei irritada comigo, ao passo que eu deveria estar dormindo na garantia de acordar com uma cara razoável. um súbito pensamento me alarmou. eu estava de maquiagem. meus poros precisavam respirar. que consciencia dramática que não me deixava dormir. usei o removedor. usei o creme. enfim, deitei pela terceira vez. a ná me veio na cabeça novamente. virei de lado para poder sonhar. agarrei o edredon e puxei-o pra cima, na vontade de abraçar alguém. tava calor. passei a mão na cintura, na tentativa de tirar alguma roupa. mas me vi pelada. e então a ná me veio na cabeça novamente. como assim estou bêbada e pelada sem minha namorada? estendi o braço para trás da cama, afim de erguer meu celular. toquei em algo retangular. e, droga, era pesado. me dei conta do computador ligado. digamos que foi uma longa batalha entre minha memória e imaginação pra contar como resolvi escrever a essa hora. acho que cansei dos meus sonhos. e não me esqueci da ânsia de escrever quando estou triste. entretenimento a parte, bêbada tentando se auto-resolver em um parágrafo é fato. creio que, no fim, necessita-se de muita atenção e conversa. porque amor aqui tem bastante.
