Arquivo da categoria ‘Contos’

grande vitória

Novembro 16, 2008

era seu maior sonho, sua maior ambição. os cavalos de sua vida tinham levado-a para uma rédia diferente. tudo aquilo que respirava e tentava transcender para além do espelho foi mudado naquele dia, por aquela pessoa. depois de anos, seu sonho bateu à porta. numa ironia, tornou-se parceiro do seu parceiro. estaria na sua vida agora, de maneira fácil, sem esforço. precisava, simplesmente, agarrar. tinha a noite, exatas 9 badalas para tomar-lhe o que era seu antes de virar uma pêra (antes fosse abóbora). sua armadura estava completa, vestia grifes dos pés a cabeça. via no espelho um reflexo que lhe agradava. mas temia ser apenas disfarce para toda a sua falta de reflexo. pois era, sim, um nada. seus gestos eram complicados e medidos ao longo da noite. abraçava entorpecentes para se sentir mais forte. mas continuava sem músculos, sem culhões. apenas via, e nada fazia. seus pensamentos diziam que nada sabia fazer e que nada iria ocorrer pois era assim que era, então era assim que tinha que ser. seu sonho não era só seu. tinham roubado e feito dele criança, jogando-o de um lado para o outro ao som de risos e gozos. não tinha mais mérito e dava-lhe um pouco de nojo. mas no passado era lindo e precisava acabar logo com isso. foi embora. seu objetivo sentou-se ao seu lado e nada lhe fez a não ser encara-lo e sentir-se impotente. antes de partir, tentou contato. pífio, pareceu como o dos outros, um “até logo, meu amigo”.

Retrato

Novembro 14, 2008

Um tanto quanto mórbida a minha respiração. Não valeria a pena citar o assassinato de minha euforia se não fosse um prazer relembrar uma dor. Estava esticada na cama, alongando os dedos dos pés enquanto me concentrava em manter o celular parado em cima da orelha esquerda. Minha voz falhava a medida em que, depois de um tempo calada, retomava fôlego e palavras, ou melhor, resmungos, para responder. Era uma voz doce, a que vinha do outro lado. De longe, confundida com a de um menino. Era gostoso ouvir sua respiração. Apesar de não me agradar muito o fato de escutar, de fundo, os torcedores gritando eufóricos pelo gol do corinthians na tv.

Fragmentos de um fragmento

Novembro 14, 2008

Eu era difundida em muitos fraguimentos, ao que poderia resultar-se num coletivo nome tal como complexidade dos complexos. Uma discreta homenagem ao Conjunto dos Números Complexos, talvez por estes nomearem-se Imaginários também. Note que eu trago aos fraguimentos reais uma imagem utopista, assim como os matemáticos iludiram-nos com um nome imaginário para números supostamente reais. Eis aqui a dúvida. Mas não é momento de exatas, porém de humanas. Tragamos à tona pedaços de uma vivência pessoal, ora com uma infantilidade genuína, ora descrevendo adultérios na velha idade. Eu ainda vivia enquanto o defunto corpo permanecia frio em sua cova. Idéias fixas, ao contrário de criarem raízes, forneceram-me asas. E eu voei atrás do final. Perdoe-me querer acabar logo com o conto e mandar-te para o caixão. Nada morrerá se nunca nascer. Creio que o breve caminho será o de meu surgimento. 

Acaso

Novembro 13, 2008

A voracidade retornava aos corpos dormentes em estado de impulso imediato. Inesperadamente, sempre. De início, minha cabeça em outro lugar, buscava compatibilizar a tontura embriaguez com a procura instintiva de Guilherme. Não o acharia nunca naquela tamanha multidão semelhante, mas continuava a fazê-lo.

Julia, amiga da amiga, não era tão linda quanto em minha mente, mas sua felicidade me fazia sorrir. Era eu aquela que perguntava sobre uma futura e incerta relação dela e da amiga, a pedidos da última. Sem surpresas, não foi alívio nenhum a demonstração clara de que não havia relação alguma.

Continuei a dançar pelo salão com a mão de Julia segurando a minha com uma delicadeza extrema. Nossas cinturas se juntavam à medida que gargalhávamos ao pé do ouvido. E era bom sentí-la. Suas palavras agora eram comprometedoras. Falava sobre mim, falava bem de mim. Suas intenções transparentes clareavam as minhas, não por coincidência, compatentes.

E o sorriso gostoso de Julia chocou-se com o meu, literalmente. Posteriormente os lábios, e a língua. Uma sinfonia que de tão distinta, perfeita. Eu tocava em suas costas e puxava-a junto a mim, com seus cabelos em minhas mãos procurando seu rosto. Seus toques em meu colo beirando o decote de minha blusa ofuscavam nossos olhos dissimulados. Seus seios junto aos meus sentiam-se no ciclo de movimento. E era tão doce o seu olhar. 

Acordei num carro

Novembro 10, 2008

eu o segui até o topo. não se jogou. olhou pra trás. olhou pra mim. mas como se eu não estivesse lá. me atravessou em direção à porta. eu o senti e ele me sentiu. virou-se e puxou meu braço a toda força. descemos as escadas correndo. eu, presa a ele. pra sempre. e lá estava o carro. noite estranha, a passada. garrafas vazias, cigarros mal fumados. sempre ímpar, e nunca tenho par. menino barbudo do meu lado abria minhas pernas sem tocar. tesão. seu all star preto andava o salão inteiro, mas nunca atrás de mim. suas calças rasgadas sentavam em todos os colos, mas nunca no meu. sua camisa dos mutantes roçava em todos os seios, mas nunca nos meus. e sua boca, demorava a chegar perto da minha. era eu a loser que sempre esquecia o isqueiro. e era ele aquele que sempre levava um. me acende? opa! tá aqui. ficou me olhando por entra aquela fumaça toda. não me surpreendi, malboro é bom mesmo. te pago uma cerveja? só se você tomar comigo. aham. e foi o começo de tudo. sem nome, sem porque. sexo. era apenas sexo. empurrou o volante que amassava as minhas pernas. jogou o banco pra trás. sua boca abriu meu sutiã. sentei em cima dele. e não desci mais. me levou às estrelas. virei e dormi. ele falou comigo. não era pra falar. não era amor. não entendi. vou me matar. você teria coragem? continuei a não entender. eu cansei. acho que não existo. claro que sim! está aqui do meu lado, agora pouco estava dentro de mim! não. não sou real. hum…onde estou? acordei num carro. viro pra trás, nua. vejo um menino correndo prédio adentro, nu. então o segui. pra sempre.

rascunhado em 22-08-04

sombra das pálpebras

Novembro 7, 2008

Quem tem coragem de me dizer para não sonhar? Quando fecho os olhos por instantes longos e frágeis como uma vara de pescar barata, perco a coragem de abrí-los. Enxergo espíritos luminosos, mas tudo o que faço é tentar olhar mais para dentro. Me imagino entrando numa vagina, larga e sem fim. Ignoro a vermelhidão do meu choro mas não consigo deixar de notar os freios em meu movimento. Sou empurrada novamente pra frente, mas teimo em pressionar minhas pálpebras que quase roçam em minhas bochechas. O jeito é controlar com as mãos o escuro que me pertence. Como um cego de orelhas, nem ouvir eu vejo. Apenas imagino, e já está bom.

o ato

Outubro 31, 2008

Meus dedos sujos a tocaram umas 10 vezes. Caralho, ela não se mexia. Podia ver como estava gélida sua pele, aqueles lábios fininhos agora se enxiam de pudim roxo. O meu suor se confundia com o dela. Achei melhor levantar meus joelhos do chão, ainda observando-a de perto. Eu estava orgulhosa. Estava aliviada. Estava com ódio fervilhando pelas minhas narinas em forma de vapor quente e bufante. Era o desespero que me surpriendeu. Meu desejo era que ela ainda estivesse viva, para que eu pudesse esfaqueá-la de novo. Morta, assim, não me servia de nada.

um dia típico de aula

Outubro 23, 2008

Eu estava cercada de sacos pretos que vazam escremento. O cheiro subia pela minha narina e meu pulmão recusava. Minha boca tentava tragar, mas havia gosto na minha saliva. O liguido preto chegava aos meu pés num movimento de ressaca, como óleo gosmento. Eu olhava, reprovava e rezava para que meu câncer me comesse e deixasse minha massa cefálica pingar pelo chão. Eu lembrava da página amarela de minha agenda, marcando o dia de hoje com um círculo vermelho. Eu tinha compromisso e meu estômago estourava ácido como eu estoro plástio bolha. Prazerosamente, eu engolia meu coração e desejava que suas artérias entupissem de ansiedade. Tomei um elevador como se toma um trem, não encarei olhos nenhum, escolhi um canto e fingi meditar na tela do meu celular. Esperei os minutos passarem como um bote sem remo, sentada na privada de cada banheiro que eu encontrava pelo caminho. Tomei outro elevador, subindo, cruzei os dedos para não parar em nenhum outro andar senão o meu. E parou. Desceu, subiu, parou. Eu fiquei lá dentro como um clastofóbico entupido de timidez, fingindo pensar, fingindo não olhar, fingindo estar confortável. Encarei as paredes molhadas pelo meu suor, encarei o chão encaroçado e sujo de lama. Cheguei.

último dia de mágica

Outubro 12, 2008

 

 

Com os pés pra fora cama, as meias em meus pés ela tirava com o dedão do pé esquerdo e, com o dedão da mãe direita, traçava um caminho por mim. Suas mãos me moldavam como barro. Meu suor era leite, e ela me absorvia por seus poros e sua língua. Eu me dissolvia toda e ela me mexia com a colher. Eu era, naquele interminável momento, o seu prato predileto.

“Não, eu não quero mais ser só sua”, eu dizia, repetia e gestuava. Eu estava na cama, ela na cozinha. Trazia comigo um roupão de banho que meus ombros sustentavam com dificuldade a medida em que eu ia me abaixando para pegar minhas roupas reviradas no chão. Eu abri a cortina de ilusões e dei dois passos para trás. Teria dado mais se não fosse o espaço entre a cama e a janela. Era sufocante aquele quarto, podia-se ver cada grão de poeira que movimentava os ventos trazidos pela porta dos fundos.

“Não quero mais ser só”, eu continuava, como uma canção. Já estava na cozinha esse momento, e a encarava. Ela, minha vida. Parecia um porre homérico, essa coisa de ter que explicar-se antes de terminar. “Não quero mais”.