Meus dedos sujos a tocaram umas 10 vezes. Caralho, ela não se mexia. Podia ver como estava gélida sua pele, aqueles lábios fininhos agora se enxiam de pudim roxo. O meu suor se confundia com o dela. Achei melhor levantar meus joelhos do chão, ainda observando-a de perto. Eu estava orgulhosa. Estava aliviada. Estava com ódio fervilhando pelas minhas narinas em forma de vapor quente e bufante. Era o desespero que me surpriendeu. Meu desejo era que ela ainda estivesse viva, para que eu pudesse esfaqueá-la de novo. Morta, assim, não me servia de nada.
Posts de Outubro, 2008
o ato
Outubro 31, 2008clarice disse:
Outubro 31, 2008“Melhor não matar meus defeitos. Nunca se sabe qual deles sustenta o edifício”.
ROCK N EXCEL
Outubro 29, 2008
Acabo de ver na internet o novo clipe do AC/DC (sim, eles voltaram!) da música Rock N Roll Train. E não é mais um clipe geração MTV filmado em super8 ou imagens ao vivo de um show em estádio. O clipe é em formato EXCEL. Sim, este mesmo das tabelas, cálculos e dados. As letras em movimento se transformam em imagem ao nossos olhos.
É o primeiro clipe realizado desta forma. Um belo jeito de voltar a ativa, quebrando os padrões das mídias a que já estamos tão acostumados e deixando o youtube pra depois. É bom ver que o velho Angus Young continua ROCKING THE OFFICE e ainda resolve o problema de quem não pode acessar o youtube do trabalho. Old school rebel, como diz a letra.
Clipe em excel http://www.acdcrocks.com/excel/
ps: esse post foi selecionado para concorrer por um estáGio na agência CO.R
um dia típico de aula
Outubro 23, 2008Eu estava cercada de sacos pretos que vazam escremento. O cheiro subia pela minha narina e meu pulmão recusava. Minha boca tentava tragar, mas havia gosto na minha saliva. O liguido preto chegava aos meu pés num movimento de ressaca, como óleo gosmento. Eu olhava, reprovava e rezava para que meu câncer me comesse e deixasse minha massa cefálica pingar pelo chão. Eu lembrava da página amarela de minha agenda, marcando o dia de hoje com um círculo vermelho. Eu tinha compromisso e meu estômago estourava ácido como eu estoro plástio bolha. Prazerosamente, eu engolia meu coração e desejava que suas artérias entupissem de ansiedade. Tomei um elevador como se toma um trem, não encarei olhos nenhum, escolhi um canto e fingi meditar na tela do meu celular. Esperei os minutos passarem como um bote sem remo, sentada na privada de cada banheiro que eu encontrava pelo caminho. Tomei outro elevador, subindo, cruzei os dedos para não parar em nenhum outro andar senão o meu. E parou. Desceu, subiu, parou. Eu fiquei lá dentro como um clastofóbico entupido de timidez, fingindo pensar, fingindo não olhar, fingindo estar confortável. Encarei as paredes molhadas pelo meu suor, encarei o chão encaroçado e sujo de lama. Cheguei.
meu chico
Outubro 21, 2008chega estampado, manchete, retrato
com vendas nos olhos, legenda e as inicias
eu nao entendo essa gente, seu moço
fazendo alvoroço demais.
coração na sacola
Outubro 21, 2008só quem me vê lendo o jornal na fila do pão sabe q eu te encontrei. ir para onde o vento for é privilégio. pra nós dois, sair de casa já é se aventurar. me diz o que é sufoco que eu me mostro afim de te acompanhar. e se o caso for, eu levo minha casa numa sacola.
vem, meu bem, que já não consigo mais conjugar meus verbos para que te impeça de rejeitar. vem, meu amor, antes que eu termine a frase em três pontos. vem, coração, porque esse aqui já não cabe mais na linha, na frase, no parágrafo, na vida. vem.
acorda
Outubro 15, 2008a pessoa mais importante do mundo pra mim me disse hoje que eu sou arrogante. que eu me fecho pra tudo, e minha opinião é a única válida. que eu sou o centro de tudo e contrario a tudo e a todos.
esta pessoa está certa. eu sou uma bosta de pessoa. nem fazer alguém feliz eu consigo, porque estou muito ocupada me fazendo feliz.
eu vou mudar. vou mudar. vou estar aberta à tudo, mesmo àquilo de que eu não gosto. vou ouvir todos. vou ajudar. vou ouvir mais e me expressar menos. porque minha opinião só será importante se ela estiver ajudando alguém. nunca porque estará menosprezando.
a nossa bossa nova
Outubro 12, 2008eu ando em frente por sentir vontade. eu ando em frente pra sentir saudade. tentei esquecer sobre mim. comecei a escrever sobre mim. eu vi primeiro aquele menino bonito. eu soube primeiro quem ele era. canto pra ele, só sei dizer pra cuidar bem de mim. eu quis te conhecer, mas tive que aceitar. eu quis te conhecer, mas chega de insistir. caberá à nós o que há de vir. quem dera ser a eternidade. caminho em frente, novamente.
lembro dos seus rabiscos. lembro das suas filosofias. lembro de suas letras. lembro da sua voz. lembro das suas canções. lembro dos seus gostos. lembro das suas risadas. lembro das suas vontades. lembro até do rosto que não vi.
eu escondi minhas falas. escondi meus poemas, minhas canções. escondi meu amor, meus sonhos, minhas vontades. escondi quem eu era e me tornei outra. me tornei a sua.
naquele violão de bossa nova, sua voz cantava “lará…lará…lará. o que me falta são palavras pra dizer. lará…eu não as tenho, mas eu procuro o meu amor. lará…”
último dia de mágica
Outubro 12, 2008
Com os pés pra fora cama, as meias em meus pés ela tirava com o dedão do pé esquerdo e, com o dedão da mãe direita, traçava um caminho por mim. Suas mãos me moldavam como barro. Meu suor era leite, e ela me absorvia por seus poros e sua língua. Eu me dissolvia toda e ela me mexia com a colher. Eu era, naquele interminável momento, o seu prato predileto.
“Não, eu não quero mais ser só sua”, eu dizia, repetia e gestuava. Eu estava na cama, ela na cozinha. Trazia comigo um roupão de banho que meus ombros sustentavam com dificuldade a medida em que eu ia me abaixando para pegar minhas roupas reviradas no chão. Eu abri a cortina de ilusões e dei dois passos para trás. Teria dado mais se não fosse o espaço entre a cama e a janela. Era sufocante aquele quarto, podia-se ver cada grão de poeira que movimentava os ventos trazidos pela porta dos fundos.
“Não quero mais ser só”, eu continuava, como uma canção. Já estava na cozinha esse momento, e a encarava. Ela, minha vida. Parecia um porre homérico, essa coisa de ter que explicar-se antes de terminar. “Não quero mais”.
on the road
Outubro 5, 2008“And so I shambled after, as I’ve been doing all my life after people who interest me, because the only people for me are the mad ones, the ones who are mad to live, mad to talk, mad to be saved, desirous of everything at the same time, the ones who never yawn or say a commonplace thing, but burn, burn, burn, like fabulous yellow roman candles exploding like spiders across the stars and in the middle you see the blue centerlight pop and everybody goes ‘Awww!”
Jack Kerouac, On the Road
