Ó Rosa, estás doente.
Numa noite terrível
Na uivante torrente,
Voa o verme invisível:
Encontrou o teu leito
De alegria menina:
Seu negro amor secreto
A vida te assassina.
(William Blake)
Ó Rosa, estás doente.
Numa noite terrível
Na uivante torrente,
Voa o verme invisível:
Encontrou o teu leito
De alegria menina:
Seu negro amor secreto
A vida te assassina.
(William Blake)
eu acredito e confio que posso manter minha palavra. caso eu consiga o que eu quero, irei, por um ano, não comer aquilo que amo, farei aquilo que me dá preguiça e seguirei aquilo que me traz dúvidas. amém.
era seu maior sonho, sua maior ambição. os cavalos de sua vida tinham levado-a para uma rédia diferente. tudo aquilo que respirava e tentava transcender para além do espelho foi mudado naquele dia, por aquela pessoa. depois de anos, seu sonho bateu à porta. numa ironia, tornou-se parceiro do seu parceiro. estaria na sua vida agora, de maneira fácil, sem esforço. precisava, simplesmente, agarrar. tinha a noite, exatas 9 badalas para tomar-lhe o que era seu antes de virar uma pêra (antes fosse abóbora). sua armadura estava completa, vestia grifes dos pés a cabeça. via no espelho um reflexo que lhe agradava. mas temia ser apenas disfarce para toda a sua falta de reflexo. pois era, sim, um nada. seus gestos eram complicados e medidos ao longo da noite. abraçava entorpecentes para se sentir mais forte. mas continuava sem músculos, sem culhões. apenas via, e nada fazia. seus pensamentos diziam que nada sabia fazer e que nada iria ocorrer pois era assim que era, então era assim que tinha que ser. seu sonho não era só seu. tinham roubado e feito dele criança, jogando-o de um lado para o outro ao som de risos e gozos. não tinha mais mérito e dava-lhe um pouco de nojo. mas no passado era lindo e precisava acabar logo com isso. foi embora. seu objetivo sentou-se ao seu lado e nada lhe fez a não ser encara-lo e sentir-se impotente. antes de partir, tentou contato. pífio, pareceu como o dos outros, um “até logo, meu amigo”.
muito menos um fim.
Ela diz coisas que não sabe. E sabe de algo, mas não diz. Seus textos são jorradas de apenas palavras. E suas palavras são alma e contexto. Ela ama gostar de alguém. E não gosta de amar todo mundo. Ela diz não saber mentir. E mente sobre isso. Ela pode ou não ser eu. Tanto faz.
Um tanto quanto mórbida a minha respiração. Não valeria a pena citar o assassinato de minha euforia se não fosse um prazer relembrar uma dor. Estava esticada na cama, alongando os dedos dos pés enquanto me concentrava em manter o celular parado em cima da orelha esquerda. Minha voz falhava a medida em que, depois de um tempo calada, retomava fôlego e palavras, ou melhor, resmungos, para responder. Era uma voz doce, a que vinha do outro lado. De longe, confundida com a de um menino. Era gostoso ouvir sua respiração. Apesar de não me agradar muito o fato de escutar, de fundo, os torcedores gritando eufóricos pelo gol do corinthians na tv.
Eu era difundida em muitos fraguimentos, ao que poderia resultar-se num coletivo nome tal como complexidade dos complexos. Uma discreta homenagem ao Conjunto dos Números Complexos, talvez por estes nomearem-se Imaginários também. Note que eu trago aos fraguimentos reais uma imagem utopista, assim como os matemáticos iludiram-nos com um nome imaginário para números supostamente reais. Eis aqui a dúvida. Mas não é momento de exatas, porém de humanas. Tragamos à tona pedaços de uma vivência pessoal, ora com uma infantilidade genuína, ora descrevendo adultérios na velha idade. Eu ainda vivia enquanto o defunto corpo permanecia frio em sua cova. Idéias fixas, ao contrário de criarem raízes, forneceram-me asas. E eu voei atrás do final. Perdoe-me querer acabar logo com o conto e mandar-te para o caixão. Nada morrerá se nunca nascer. Creio que o breve caminho será o de meu surgimento.
A voracidade retornava aos corpos dormentes em estado de impulso imediato. Inesperadamente, sempre. De início, minha cabeça em outro lugar, buscava compatibilizar a tontura embriaguez com a procura instintiva de Guilherme. Não o acharia nunca naquela tamanha multidão semelhante, mas continuava a fazê-lo.
Julia, amiga da amiga, não era tão linda quanto em minha mente, mas sua felicidade me fazia sorrir. Era eu aquela que perguntava sobre uma futura e incerta relação dela e da amiga, a pedidos da última. Sem surpresas, não foi alívio nenhum a demonstração clara de que não havia relação alguma.
Continuei a dançar pelo salão com a mão de Julia segurando a minha com uma delicadeza extrema. Nossas cinturas se juntavam à medida que gargalhávamos ao pé do ouvido. E era bom sentí-la. Suas palavras agora eram comprometedoras. Falava sobre mim, falava bem de mim. Suas intenções transparentes clareavam as minhas, não por coincidência, compatentes.
E o sorriso gostoso de Julia chocou-se com o meu, literalmente. Posteriormente os lábios, e a língua. Uma sinfonia que de tão distinta, perfeita. Eu tocava em suas costas e puxava-a junto a mim, com seus cabelos em minhas mãos procurando seu rosto. Seus toques em meu colo beirando o decote de minha blusa ofuscavam nossos olhos dissimulados. Seus seios junto aos meus sentiam-se no ciclo de movimento. E era tão doce o seu olhar.
Quando um teto incerto se mistura
Com um parapeito estreito.
Pouco sabe ela da presa
Ou muito entende e tenta se livrar.
Deixa cair o orgulho, mulher.
Num momento espera por resposta
Pífia, que a venha, solicita
Uma pergunta que se aplica sem questão.
Não há voz que se solte
Nem lamento que crucifique um perdão.
Não procura preocupação
Livre, nem um pouco ostra
Se deixa entrar e sair um canhão.
Que dó lhe ampara os importunos
Esquece-a de vista, e caminha.
Que medo, aquele que escapa
Que vergonha, aquela que sobra
Rompidas as duas mãos.
Simples manifesta um gesto
Ou difícil lhe agrada um empurrão.
Que mate, demônio.
não, eu não sambo mais em vão
o meu samba tem cordão
o meu bloco tem sem ter e ainda assim
sambo bem à dois por mim…
te arrasto por todos os cantos sem cantos, você, como aquela menininha que subia no pé da moça pra dançar sem precisar sambar. Posso ser sua moça? Controlar suas pernas, guiar suas mãos. Queria subir pelas cordas daquele acordeão.
…bambo e só, mas sambo, sim, sambo por gostar de alguém.